quinta-feira, 5 de março de 2015

CINQUENTA TONS DE CINZA (Fifty Shades of Grey, 2015, de Sam Taylor-Johnson)Na semana em que o congresso brasileiro, um dos mais conservadores (pra não dizer retrógrados) do mundo, aprova uma lei de proteção à mulher, tornando o feminicídio crime hediondo, CINQUENTA TONS DE CINZA atinge a marca dos 5 milhões de espectadores nos cinemas nacionais (depois de catapultar milhares de leitores com o best-seller há cerca de dois anos). A comparação seria esdrúxula se a trama do filme não levantasse a bandeira de um machismo repugnante por trás de uma pseudo proposta de um soft porn fetichista. Christian Grey e Anastasia Steele não vivem um romance que deveria ser motivo de suspiros dentro do cinema, pelo contrário: os personagens que o filme apresenta colocam em posições diametrais uma jovem ingênua e indecisa (clichê maior do imaginário do macho alfa) que se torna isca para um poderoso homem que possui segredos e desejos dos quais ele mesmo parece se envergonhar (que não pode ser dito de forma direta, que ninguém da família sabe, que está trancando dentro de um quarto escuro). O objetivo: contratar a jovem como sua escrava sexual (sim, contratar, de papel passado, com a enganação de ser ‘consensual’ mas cheio de cláusulas e pronomes de tratamento chocantes: submissa e dominador) e garantir de todas as formas o controle de sua posse (invadindo sem convite prévio os locais onde Anastasia tem a liberdade de existir por si só, com os amigos em uma boate ou um final-de-semana com a família; ou ainda comprando-lhe presentes caros). A diretora que se presta a este desprazer, Sam Taylor-Johnson, deveria se envergonhar pela falta de sensatez ao levar adiante as aparentes bizarrices (não li o livro) da autora E.L. James (vejam só, duas mulheres!) quando notícias como esta se tornam cada vez mais frequente. 

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