quarta-feira, 7 de maio de 2014


Há quem torça o nariz para o cinema de armadilhas e artimanhas que o canadense Dennis Villeneuve faz. E depois da bem sucedida incursão no thriller hollywoodiano OS SUSPEITOS, no ano passado, em seu novo filme, O HOMEM DUPLICADO, o diretor volta a tocar na mesma construção de REDEMOINHO, sua estreia nos cinemas em 2000, vencedor de oito prêmios no Genie Awards daquele ano e da Mostra Panorama do Festival de Berlim. A história, que é baseada na obra homônima do escritor português José Saramago, apresenta como protagonista Adam, um professor universitário que certo dia assiste a um filme no conforto do sofá de casa e vê-se em cena, em segundo plano. A partir de então, começa a investigar o significado daquilo, atrás das respostas mais imediatas (um irmão gêmeo que nunca lhe foi anunciado ou a existência de um duplo/clone em algum lugar do mundo).

Extrapolando em muito a estranheza do universo visual criado em sua estreia, Villeneuve propõe um filme bastante enxuto, guiado por simbologias intrigantes e enigmáticas (a aranha que estampa o pôster, presente em diversos segmentos do filme, possivelmente é a mais emblemática delas), com diálogos e fatos que nunca merecem ser descartados e que se conectam com alguma outra sequência apresentada em seus 90 minutos de duração. O HOMEM DUPLICADO é um daqueles exemplares cinematográficos cuja primeira análise não dá cabo de todas as intenções almejadas: é preciso ruminar cada acontecimento como forma de montar o quebra-cabeça proposto pelo diretor. É um modo fascinantemente interessante de se fazer cinema (que se esgota numa segunda ou terceira olhada e a partir de então merece ficar na memória). O caminho percorrido pelo protagonista vivido por Jake Gyllenhaal até desvendar a existência de Anthony, seu duplo, tem suas ações e falas tão minuciosamente pensadas que chega a ser perturbador em quase todas as cenas – não é raro que o espectador se pergunte várias vezes que tipo de história está acompanhando – acrescido pelo fato de que, como a protagonista de Marie-Josée Croze de REDEMOINHO, Adam (o Tertuliano Máximo Afonso de Saramago) vive uma vida soturna e cíclica, que jamais parece despertar qualquer interesse dele mesmo – ainda que tenha uma boa profissão (que ele faz questão de conduzir com absoluta desmotivação), um belo apartamento (cuja ambientação é o reflexo de sua vida depressiva e desinteressante) e uma namorada belíssima (vivida pela francesa Melànie Laurent) com quem mantém boas noites de sexo.

O ótimo roteiro de Javier Gullón passa longe do didatismo, mesmo com seu autor afirmando ter modificado seções da trama original de Saramago. Para o filme, a complexa jornada de Adam teria, na verdade, um forte caráter subjetivo, distante de respostas fáceis que a existência de um homem duplo pode indicar. Para o cinema, O HOMEM DUPLICADO é Dennis Villeneuve percorrendo os caminhos que David Lynch fez em MULHOLLAND DRIVE – com menos camadas e brilhantismo, mas entregando um filme incrível.



SPOILER
(revelações importantes sobre o conteúdo do filme, não recomendável para quem ainda não o assistiu)


Apesar da trama suscitar diferentes explicações sobre seu conteúdo, a que me ocorre com maior clareza é que Anthony, o ator, é um produto do subconsciente de Adam, o professor. Como se ele estivesse num surto de dupla personalidade, em decorrência da vida insossa que leva com sua esposa, Helen (vivida pela atriz Sarah Gadon), que está grávida, após obrigá-lo a terminar seu caso extraconjugal com Mary (personagem de Melànie Laurent). Três eixos parecem capazes de sustentar essa ideia (ainda que muitas outras coisas corroborem para tal):

Helen, a esposa. Grávida, ela fica transtornada sempre que percebe a crise mental do marido (quando fala com ele ao telefone ou no apartamento, quando vai à universidade vê-lo) e sugere em uma conversa que desconfia que ele voltou a traí-la. Ela está grávida de 6 meses, mesmo tempo em que Anthony não vai até o prédio da agência de sua “carreira” no cinema, que pode ser o local em que ele se encontrava com a amante. Ela percebe a insanidade mental do marido e, nos diálogos, insiste que ele sabe o que está acontecendo.  

Mary, a amante. Adam sempre teve traços de infidelidade – frequentava clubes de strip-tease no passado, e chega a ser questionado por sua mãe quanto a sua instabilidade – e manteve um relacionamento com Mary em um apartamento que utilizavam para se encontrar, possivelmente sem ela saber que ele era casado (ele sempre tirava a aliança?). Ao se ver encurralado pela esposa por conta de sua sanidade mental, ele dá um jeito de eliminar a amante do seu caminho – em um plano psicológico, uma vez que ao que parece todos os acontecimentos do presentes são apenas fruto da imaginação de Adam. Mary já não é a amante há pelo menos seis meses (tempo para surgir uma marca de aliança no dedo, que ela estranha).

A aranha. O elemento que denota a loucura de Adam pode representar o ponto chave da trama: o aprisionamento a um relacionamento estável com sua esposa. A aranha aparece pela primeira vez na cena do clube de strip-tease, em que uma stripper solta o bicho sobre o palco rodeado de homens para logo depois pisar sobre ela, o que parece uma metáfora bem clara do desprestígio ao casamento ou, ainda, "pisar sobre a própria esposa". Ao avançar a trama, a aranha aparece outras duas vezes: primeiro sobre a cabeça de uma mulher sensual que caminha pelo teto de um corredor escuro em um sonho de Adam (outra metáfora para a infidelidade, a mulher que “vira a cabeça” do homem); e em seguida, sobre os edifícios da cidade (sinal da opressão do ser sociável?). Na cena do acidente de carro, após o capotamento, o vidro lateral do banco em que estava Mary, a amante, tem um trincado em forma de teia de aranha (a esposa teria, definitivamente, vitimado a amante e capturado o marido?). Por fim, após a aparente ordem mental de Adam ter sido restabelecida, na cena final, tem-se a maior estranheza, quando ele vê que a mulher se tornou uma aranha gigantesca dentro do quarto do casal, dominando cada pedaço do cômodo. Sugestivo, não?


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Para ver: O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, de Dennis Villeneuve). Com Jake Gyllenhall, Melànie Laurent, Sarah Gadon, Isabela Rossellini.
Cotação:

Um comentário:

  1. Want to know about Veterans Day,which is a day to celebrate the great officers of the US army,just checkout my blog Veterans Day Poems and stay updated.

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